Amor é decisão

Amor é decisão

Há alguns anos atrás tive a responsabilidade de abençoar, como ministro, o casamento de minha sobrinha.

A pergunta que me inquietou foi a mesma do teólogo Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano, quando também estava designado para o ofício matrimonial de sua sobrinha: “que mensagem partilhar”? Membro da chamada “Igreja Confessante”, que proclamou durante a ditadura nazista que “Jesus Cristo e não homem algum ou estado é o nosso salvador”, Dietrich, que em nove de abril de 1945 viria a ser enforcado pelos nazistas por reafirmar sua fé contestadora, foi sábio ao afirmar aos sobrinhos noivos que “assim como é a posse da coroa, e não apenas a vontade de reinar que faz um rei, da mesma forma, no casamento, não é somente o seu amor mútuo que os une perante Deus e os homens; assim como Deus está acima do homem, assim também estão a santidade, os direitos e as promessas do casamento acima da santidade, dos direitos e das promessas do amor; não é o seu amor que susterá o casamento, mas doravante é o casamento que susterá o seu amor”.

Trocando em miúdos: sem desconsiderar o amor sentimento, que levou Albert Einstein, um dos maiores gênios da humanidade, a mimosear sua amada Mileva Maric, cientista sérvia, com expressões românticas como “gatinha, boneca, minha única e doce mulher”, Dietrich alerta que a sustentação da complexa relação marido/mulher está no amor decisão, próprio daqueles que, após selarem sua aliança no altar de Deus, prosseguem ininterruptamente na caminhada do amor com garra, determinação e vontade pois “amar alguém não é apenas um sentimento forte mas, acima de tudo, uma decisão, um julgamento, uma promessa” (Erich Fromm).

O amor decisão não é uma negação do romantismo traduzido pelo grande Camões como “fogo que se arde sem se ver, ferida que dói e não se sente”, um fogo que faz as palmas das mãos suarem, as faces de afoguearem, a pele arrepiar, o coração disparar e o sorriso tornar-se incontrolável. Ele assemelha-se ao amor divino expresso à sua esposa “Israel” no pácto da velha aliança: “de longe se me deixou ver o Senhor dizendo – com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade de atraí” (Jeremias 31:3), ou seja, baseia-se numa decisão que gerou atração e não numa atração que gerou decisão. Um amor assim, liberto das oscilações incompreensíveis do sentir, não é para fracos, medrosos, indolentes, inconstantes e oportunistas, mas apenas para corajosos, audaciosos, persistentes e disciplinados.

Trata-se, enfim, de um amor consciente de que “o cônjuge mais feliz não é aquele que se casou com a melhor pessoa, mas aquele que consegue extrair o que há de melhor na pessoa com quem se casou” (John Dresher). Meus sobrinhos e todos nós que já fizemos a livre escolha do casamento somos chamados para este amor decisão, que precisa ser selado no altar e manter-se permanentemente nele, renovando-se na marcha do tempo através de intermináveis e incontáveis expressões de ternura, como Cristo honrando a promessa de ir até o fim (João 13:1), na certeza inabalável de que o amor decisão jamais acaba (I Corintios 13:8).

Pr. Jair Francisco Macedo

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