Oi, mamãe

Oi, mamãe

Tenho sido tomado nestes dias por uma crescente saudade de alguém que marcou profundamente minha história. Mulher simples, de uma humildade cativante, com formação escolar precária, mas de uma sabedoria que encantava a todos que desfrutavam de sua amizade. Esposa fiel ao mesmo marido dos dezessete até ao sexagésimo quinto e último ano de sua vida, vivenciava um amor à moda antiga que chegava ao extremo de escolher todos os dias a roupa que o amado trocaria. Solidária, tinha na sua lista de relacionamento pessoas carentes às quais oferecia uma ajuda regular, mas acima de tudo um coração disposto a ouvir e orientar. De habilidade rara nas artes culinárias, fazia seus pratos com muita fartura, pois sabia que sempre apareceria alguém de “surpresa” exatamente na hora que o almoço fosse servido. Parceira focada no difícil desafio da provisão familiar, gastou os melhores anos de sua vida produzindo as quitandas que faziam muito sucesso no melhor bar da cidade.

Mas o que mais me encantou nela, indubitavelmente, foi a sua maternidade. A pequena menina de Pimenta-MG, filha do Joaquim Francisco, órfã de mãe desde os quatro anos, agigantou-se e abraçou o sonho do seu jovem esposo João, partindo com mala, cuia, todos os cunhados e sogros, em 1954, para a nascente Rubiataba, no vale goiano do São Patrício. Aos três pequenos filhos mineiros agregou outros seis goianos. Sua determinação em discernir e suprir os gostos alimentares de cada um dos seus pimpolhos era divertido. O Jajá, autor destas mal traçadas linhas, era chamado de seu queridinho pois, dentre as muitas mordomias, tinha o direito de receber num prato estrategicamente escondido o “jogo do frango”. Tudo brincadeira, pois ela como ninguém discernia e atendia os gostos individuais, oferecendo a todos a segurança de um amor sem qualquer discriminação. Amor que a levou a vivenciar o drama da perda prematura e definitiva da quarta filha e os sonhos dos demais que, um a um, seguiram bem novos pelos caminhos da vida em busca de conhecimento, deixando no seu coração o buraco da saudade, mas, igualmente, a certeza de que seus meninos, longe dela, conservariam os princípios impregnados no coração, base suficiente para serem cidadãos do bem. Assim, com tão hábil treinadora, acabamos formando um time, que há mais de sessenta anos, em meio a grandes lutas, segue vitoriosamente no jogo da vida levando a sério valores como trabalho, honestidade, simplicidade e amizade, princípios que ela, juntamente com nosso maravilhoso pai, mesmo sem a destreza das palavras, impregnou em nossas vidas pela força do exemplo.

Por isso, neste dia das mães, apesar da saudade que aperta o coração, prevalece um sentimento de profunda gratidão a Deus, que em seu plano eterno, “me teceu de modo assombrosamente maravilhoso” (Salmos 139:5) no ventre desta mineirinha quase anônima, conhecida apenas pelo apelido de Dalica, e me deu por meio dela a segurança de um amor genuíno que vem do Seu trono eterno, manifestado plenamente em Seu filho Jesus, por meio de quem me segreda a cada dia: “ouví-me você a quem desde o nascimento carrego e levo nos braços desde o ventre materno; até à sua velhice eu serei o mesmo e, ainda até às cãs, eu carregarei você; já o tenho feito – levarei, carregarei e salvarei você” (Isaías 46:3-4). Neste aconchego do Pai, abraço de coração cada mamãe, dizendo o que se pudesse falaria àquela que continua viva na minha história: “oi mamãe, Deus lhe abençoe, amo você”!

Pr. Jair Francisco Macedo

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