Habacuque, um profeta em crise com Deus – HABACUQUE 1: 2-4.

24 de junho de 2019
Habacuque, um profeta em crise com Deus – HABACUQUE 1: 2-4.
  1. A morte trágica de dez dos jogadores da base do Flamengo, ocorrida há poucos dias no “Ninho do Urubú”, revela:

a) A fragilidade da vida humana

Em poucos minutos, vários anos de sonho viraram cinzas…. (Ex.: Lucca)

b) A fragilidade da segurança humana

Estar no maior clube de futebol do Brasil representava para atletas e família a segurança de um futuro com sucesso,  fama e dinheiro… Em poucos minutos toda esta segurança foi completamente eliminada pelas chamas de um incêndio….

c) A necessidade de uma volta imediata para Deus

A  vida só tem sentido quando alicerçada exclusivamente em Deus (At 17:28 “vivemos… movemos.. existimos… somos geração…”). Na sequência de reflexões que iniciamos hoje em Habacuque, seremos levados de uma maneira extraordinária pelo Espírito à compreensão  e vivência deste sentido único da vida em Deus….

  1. O perfil de Habacuque

Seu nome significa “abraço” aparece apenas duas vezes na Biblia e apenas no seu pequeno livro (1:1; 3:1). Ele foi contemporâneo de Jeremias e profetizou no final do Reino de Judá – Reino do Sul e, provavelmente, exerceu seu ministério no reinado de Jeoaquim (609-598 a.C.)

3. A crise de Habacuque: uma crise com Deus

a) Era a crise de Castro Alves quando pensava  na relação de Deus com a África….

O sentimento de Castro Alves, expresso na famosa poesia de 1868 (Vozes da África), era que, no que dizia respeito ao continente africano e em especial, aos africanos que vinham sendo trazido aos milhares para serem escravizados no Brasil, Deus saíra de cena.

“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? 
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes 
Embuçado nos céus? 
Há dois mil anos te mandei meu grito, 
Que embalde desde então corre o infinito… 
Onde estás, Senhor Deus?…”

b) Normalmente os profetas confrontam o povo em nome de Deus (Ex.: Isaías, Jonas, Naum, Obadias….). Habacuque confronta a Deus em nome do povo…

4. PORQUE HABACUQUE ESTAVA EM CRISE COM DEUS? QUAIS OS DESAFIOS QUE ESTA CRISE IMPUNHA AO SEU CORAÇÃO?

I – OS DESAFIOS DA CRISE DE HABACUQUE

  1. A mensagem de Deus era difícil de receber e de entregar (v. 1 “Sentença revelada ao profeta Habacuque”)

Habacuque não produziu uma mensagem, mas a recebeu de forma clara, inequívoca e verdadeira do próprio Deus. Assim, foi uma relação divina e pessoal. Mas, o grande desafio de Habacuque era a percepção de que não recebera uma mensagem adocicada de enlevo espiritual, entretenimento religioso  ou de auto-ajuda, mas uma“sentença” = “peso, fardo”. Ela não lhe trouxe, em momento algum, tranquilidade, mas profundas inquietações…

Este é o desafio da missão profética que também exercemos: não somos chamados a entregar a mensagem que queremos ou a mensagem que o povo quer receber, mas, unicamente, aquela que está no coração de Deus, que age no coração humano salvando, curando, edificando e restaurando.

  1. O relógio de Deus não estava funcionando (v. 2 “Até quando, Senhor…”)

Habacuque se via como um profeta de Deus, um enviado de Deus, um representante de Deus, mas a sua sensação interior era que, depois de recebido a Sua sentença,  em algum momento da história, Deus  deixara de vê-lo e, inexplicavelmente, perdera a noção de tempo….

Seu sentimento era o mesmo de Jó quando tragicamente perdera toda a sua família e todos os seus bens….

Se em algum momento de sua vida, por razões diversas, em meio às perturbações das circunstâncias interiores e exteriores, vier ao seu coração o sentimento de um atraso divino, não se assuste, muitos servos e servas de Deus passaram e passam por este mesmo desafio….

  1. O silêncio de Deus era evidente (v. 2 “…. clamarei eu, e tú não escutarás?)

Pior do que enfrentar o atraso de Deus, é enfrentar o silêncio de Deus. Habacuque, como profeta, penetrava frequentemente os altares divinos e neles sentia-se acolhido e amado e, mais do que isso, tinha a liberdade de desenvolver diálogos longos e saudáveis com Deus. Mas agora, inexplicavelmente, sua  sensação era de que o Deus falante virou um Deus mudo, frio, insensível, petrificado.

Em algum momento da história, você já enfrentou ou terá de enfrentar o silêncio de Deus. Nesta hora, é preciso discernir  que até no  silêncio Deus se comunica de forma extraordinária….

  1. A indiferença de Deus era profunda (v. 2 “Gritar-te-ei: violência! E não salvarás”

Habacuque vai aumentando a sua busca de Deus: ele passa do “clamor” para o “grito”, da generalidade para a especificidade: suas inquietações com o seu povo são traduzidas em duas expressões contundentes: “violência, e não  salvarás”. Ele tinha duas certezas: havia à sua volta muita violência e havia para o povo uma única saída para a violência: a salvação de Deus, mas, inexplicavelmente  e incompreensivelmente, Deus, aparentemente,  permanecia profundamente indiferente. Os gritos do profeta pareciam não ecoar no coração do Senhor eterno….

5. A estratégia de Deus era terrível (v. 3-4 /“Por que me mostras ………)

Deus, ao invés de poupar Habacuque dos problemas da nação, tornou-os cada vez mais claros e perceptíveis aos seus olhos e ao seu coração, inserindo-o no meio de um grande furacão social. Por  isso, seu grito é intenso e extenso: “porque me mostras…..” (v. 3). Todo profeta é chamado a interpretar  as realidades humanas à luz do desígnio divino, por isso, antes de mais nada, ele precisa ver  responsavelmente e humildemente o que Deus vê…

O que ele viu:

a) Um povo dominado pela “iniquidade” (v. 3 – “por que me mostras a iniquidade”)

“Iniquidade”, como vimos a poucos dias no Sl 32, é mais  do que pecado, é o pecado que está por traz do pecado, é uma natureza corrupta que leva o homem ao confronto de Deus e do próximo, é uma raiz má que produz um fruto mal (Ex. Deltan Delagnoll – corrupção sistêmica).

b) Um povo marcado pela “opressão” (v. 3 “… e me fazes ver a opressão”)

Opressão significa o domínio danoso do forte sobre o fraco, do poderoso sobre o frágil…. (Ex.: Barragem de Fundão, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35 km de Mariana, rompida no dia 5.11.2015 – a poderosa mineradora Samarco até hoje não cumpriu suas obrigações com  as famílias dos 19 mortos e com todas as famílias e cidades atingidas)

c) Um povo marcado pela destruição e violência (v. 3 “… pois a destruição e a violência estão diante de mim….”)

O sentimento de Habacuque era de que, infelizmente, ele estava muito perto de ondas destruidoras que se espalhavam  pela nação e colocavam a violência ao seu lado.

As imagens aterradoras do rompimento da Barragem do Feijão, na cidade mineira de  Brumadinho, em que que uma avalanche de lama destruiu a vida de mais de 300 pessoas, simbolizam as ondas que  se espalham pelo nosso país e estão muito perto de nós: ondas de violência movidas pelas drogas, pela má distribuição de renda, pela falta de oportunidades para os excluídos, pelo baixo investimento em segurança pública, pela corrupção dos agentes de segurança….

d) Um povo marcado pela fragilidade dos relacionamentos (v. 4 “… há contendas e o litígio se suscita”)

      “Contendas” e “litígios” são duas palavras que estabelecem um diagnóstico de uma sociedade que não sabia lidar com a diversidade. As pessoas, em meios às suas diferenças, deixam-se levar pela mágoa, ressentimento, ira, violência verbal e quebra de convívio…..

Vivemos tempos difíceis em que contendas e litígios nascem aos milhares nos relacionamentos urbanos, tornando a vida cada vez mais precária e frágil……

e) Um povo marcado pela banalização da lei e, consequentemente, da justiça (v. 4 “Por esta causa, a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta, porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida”)

O problema de Judá não era a ausência da lei, pois eles tinham a Torah, uma lei que possuía elementos morais e jurídicos, que havia sido dada pelo próprio Deus para ordenar suas relações. O texto diz que o problema era que a lei fora “afrouxada” = “ignorada, desprezada, rejeitada, minimizada, confrontada, desobedecida”. Instalou-se em Judá um ciclo vicioso: lei frouxa, cidadãos frouxas, justiça frouxa, justiça torcida, prevalência do perverso sobre o justo…  A certeza da impunidade alimentava o delito….

Vivemos  também hoje uma crise de autoridade. Pessoas escolhidas para exercer liderança sobre a sociedade, que deveriam ser referência de conhecimento, respeito e defesa da lei, são os primeiros a ignorá-la (seis dos deputados eleitos no Rio de Janeiro em outubro do ano passado estão na cadeia…)

  II – O DIAGNÓSTICO DA CRISE

                 ** Olhando para o texto e, em especial, para todo o livro, podemos afirmar  sobre a crise de Habacuque:

  1. Estava em crise com Deus

Como continuar considerando Deus como “Senhor” se as circunstâncias não estavam evidenciando a Sua soberania? O problema de Habacuque era teológico: na sua mente e no seu coração ele não conseguia conciliar a realidade inequívoca de um Deus soberano, criador, mantenedor, provedor, amoroso com a maldade de um povo que se dizia ser SEU, mas que vivia de forma diametralmente oposta aos SEUS valores e princípios….

Não devemos ser simplistas, mas todas as vezes que enfrentamos qualquer tipo de dificuldade, a primeira pergunta que devemos fazer deve ser sempre: “como está a minha relação pessoal com Deus”.  A compreensão de quem Deus é e do que Ele faz hoje é o caminho mais eficaz para o enfrentamento da crise (Is 43:2-3 “Quando passares pelas águas…. rios…. fogo… porque eu sou o Senhor, teu Deus, o santo de Israel, o teu Salvador…”

  1. Estava em crise consigo mesmo

Por estar levantando dúvidas sobre a soberania e o amor de Deus, acabou trilhando um caminho de fragilidade pessoal. Ele sentia-se frágil, débil, impotente e incapaz de enfrentar a crise de uma forma positiva.

Assim como o profeta Habacuque não tinha um seguro espiritual que o impedia de passar por crises, nós também precisamos admitir que, apesar de nossos  esforços, sonhos, dedicação e entrega, a  crise bate às nossas portas e ela, muitas vezes, está dentro de nós…. (Ex.: Daví  – Sl 13:1-2a). Crises interiores, infelizmente, faze parte da agenda dos homens e mulheres de Deus….

  1. Estava em crise com seu povo

Desordenado na relação com Deus e consigo mesmo, o profeta Habacuque tinha  sérias dificuldades na construção de sua relação com o povo. Em nada nós diferimos dele: em paz com Deus, estamos em paz conosco mesmos e em paz com aqueles que nos cercam; em crise com Deus, estamos em crise conosco mesmos e em crise com aqueles que  nos cercam…..

CONCLUSÃO: as lições que ficam para nós olhando para a  crise de Habacuque…

  1. Precisamos insistir em buscar a Deus

Buscar a Deus deve ser a prioridade número de cada dia, semana, mês, ano e de toda a nossa existência….. Deus nos chama para uma revitalização de nossa vida devocional (Os 6:1-3 “Vinde, e tornemos para o Senhor, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará; depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia nos levantará e viveremos diante dele; conheçamos e prossigamos em conhecer o Senhor; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra”)

  1. Precisamos ser profundamente sinceros com Deus

Não basta buscar a Deus, precisamos ter um tempo contínuo de qualidade na presença de Deus. E esta qualidade passa pela sinceridade na presença de Deus. Não adianta você  viver um personagem chamado “homem de Deus abençoado” ou “mulher de Deus abençoada”, em que você decora as palavras a serem ditas a Deus, os gestos a serem feitos, os ritos a serem observados, os lugares a serem frequentados, mas este personagem não tem nada com você, não é você, não traduz o sentimento do seu coração! Não adianta declarar diante de Deus que está tudo bem, que tudo dará certo, que você será um vencedor, se estas palavras não traduzem o que está no seu coração! Jesus, citando Isaías,  nos convida hoje a tirar a máscara de uma falsa espiritualidade: “Hipócritas, bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15:7-9)

  1. Precisamos ser resposta para as crises que nosso povo enfrenta

Nosso podemos viver uma espiritualidade sem chão, sem terra, sem gente, sem lágrimas, sem dor, sem sofrimento, sem lamento, sem solidariedade, sem cura, sem restauração, sem transformação….. Deus nos chama para uma consciência missionária pessoal e permanente: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me  a curar os quebrantados de coração, a proclamara libertação aos cativos e apor em liberdade os algemados…..” (Is 61:1-4….) Faça diferença hoje onde você está plantado!

PR. JAIR FRANCISCO MACEDO

  MINISTRADO EM 10.02.2019

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